Misturadores para GNV mal dimensionados podem causar sérios danos ao veículo

Entrevistado: Edson Carrete

Responsável pela área de desenvolvimento tecnológico da Rodagás do Brasil.


Misturadores para GNV mal dimensionados podem causar sérios danos ao veículo

Todos os instaladores de sistema para uso de GNV como combustível alternativo aos combustíveis líquidos sabem da função e da importância dos misturadores, também chamados de mescladores. Mas é muito comum encontrarmos peças improvisadas com a função de promover a mistura do gás com o ar aspirado pelo motor.

Provavelmente o misturador é um dos componentes de menor custo do kit de GNV e com uma responsabilidade muito grande, pois pode ser o diferencial entre uma boa e uma má instalação sob o aspecto de desempenho. Para compreendermos tecnicamente este assunto, entrevistamos o engenheiro Edson Carrete, responsável pela área de desenvolvimento tecnológico da Rodagás do Brasil.

Qual o princípio de funcionamento do misturador?

Edson Carrete: Um misturador mal projetado pode provocar uma perda de potência excessiva, retorno de chamas e prejudicar o desempenho do veículo, inclusive no combustível original.

O misturador tem seu princípio de funcionamento baseado no Venturi que é muito estudado e aplicado em vários campos da engenharia. Basicamente um Venturi provoca o aumento na velocidade de escoamento de um fluido dentro do duto tendo a sua maior velocidade na garganta, região de menor diâmetro do duto, provocando nesse ponto uma diminuição da pressão. Os misturadores desenvolvidos para o GNV devem sensibilizar os redutores de pressão, isto é, devem provocar o deslocamento gradual da alavanca de baixa pressão, conseqüentemente, maior fornecimento de gás, à medida que o motor aspira mais ar.

Qual o grande desafio no projeto de um misturador correto?

Edson Carrete: O grande desafio ao projetar o misturador para GNV está em conseguir sensibilizar o redutor de pressão na medida certa, no espaço disponível, gerando a menor restrição ao fluxo de ar aspirado. Quanto maior a restrição, maior a depressão gerada pelo misturador para acionar o sistema de diafragma e alavanca da baixa pressão do Redutor, porém perde-se volume de ar aspirado pelo motor, resultando em menor potência.

Uma coisa que deve ser considerada no sistema de GNV é que o misturador também provoca perda na capacidade de aspiração de ar do motor, mesmo quando utilizando o combustível líquido.

O Misturador de garganta muito grande provoca baixa ou nenhuma restrição ao fluxo de ar aspirado pelo motor, porém em regimes de baixa rotação não são capazes de acionar o sistema de diafragma e alavanca de baixa pressão do redutor (3° estágio) acarretando, principalmente nas saídas, falta de torque. Por outro lado, o misturador de garganta pequena possui grande facilidade em acionar o sistema do 3° estágio com a menor variação no fluxo de ar aspirado pelo motor, como ponto negativo acarretará em grande perda de potência em rotações mais altas do motor.

Quais os aspectos importantes que você pode citar para os projetos dos misturadores?

Edson Carrete: Os aspectos importantes que devem ser observados no projeto do misturador, estão relacionados ao acabamento superficial das paredes do Venturi, que terão contato com o fluxo de ar e as suas proporções; a garganta; o comprimento do corpo; o raio de entrada, etc.

As proporções ideais de Venturi já foram estudadas e foram definidas há muitos anos, infelizmente estas proporções não podem ser utilizadas na maioria dos misturadores, acarretando perdas na sua eficiência. Portanto, a garganta do Venturi provoca um aumento na velocidade do fluido que passa por ela. Quando o misturador para GNV é desenvolvido, tornar-se necessário considerar as várias faixas de regime do motor e conseqüentemente a variação no volume de ar aspirado.

Como são consideradas essas faixas de regime do motor?

Edson Carrete: Quando o motor está operando em regimes de baixa rotação, portanto baixo fluxo de ar aspirado, a garganta do Venturi deve ser tal que gere um aumento na velocidade do ar e conseqüentemente a depressão, acionando o sistema do 3° estágio do Redutor de Pressão para menor variação de fluxo. Esse mesmo motor quando operado em regime de alta rotação, ou seja, grande fluxo de ar aspirado, a garganta do Venturi não pode elevar demasiadamente a velocidade do ar aspirado para não provocar o chamado fluxo turbulento.

Quando é atingida a velocidade no fluxo de ar capaz de gerar a turbulência, teremos uma oscilação indesejada na alimentação do motor que vai passar ocorrer também no combustível líquido.

Existem algumas irregularidades que alteram o funcionamento do misturador?

Edson Carrete: Sim. Podemos encontrar alguns “recursos” que provocam restrição na entrada do ar para aproveitar o vácuo gerado pelo motor no acionamento do conjunto do 3° estágio, nesse aspecto encontramos os mais variados objetos, indo de tampas e latas de refrigerante perfuradas, introduzidas na mangueira que interliga o TBI à caixa do filtro de ar, passando por estopa sob o filtro de ar, chegando as chapas rebitadas na entrada da caixa do filtro de ar. É claro que dá para imaginar as conseqüências desses “recursos”. Como pode-se notar, os misturadores além de interferirem diretamente no desempenho do motor, tanto no gás como no combustível original, são ainda responsáveis pelo maior ou menor consumo de GNV, sem falar na responsabilidade pelas emissões de poluentes.

Fonte: Rejane Acioli, Globo Gás Brasil

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