O petróleo irá definir o futuro do País

Potencial do petróleo, na visão do presidente, deverá "criar uma verdadeira indústria petrolífera no País"


A entrevista concedida pelo presidente Lula, publicada na edição de ontem da Gazeta Mercantil, definiu uma específica noção de futuro para o Brasil. O presidente escolheu alguns desafios para atender com o novo ciclo de riqueza aberto no País, por exemplo, com a descoberta de novos poços de petróleo: investir em educação e enfrentar a imensa dívida social brasileira. Lula foi bem incisivo nesses pontos ao dizer que trabalha com o cenário de que o Brasil será o "terceiro ou quarto produtor mundial de petróleo", mas não se conformará em ser só "um país exportador de óleo bruto". O potencial do petróleo, na visão do presidente, deverá "criar uma verdadeira indústria petrolífera no País", com estaleiros que construam sondas, plataformas e embarcações. Para Lula, os novos poços abrem uma oportunidade excepcional para "desenvolver a indústria naval brasileira".

Nesse ponto, o Brasil real começa a enfrentar os sonhos do presidente. Ele tem razão quando diz "se a gente tivesse que completar todas as sondas de que a Petrobras precisa", o País não teria condições de atender só com a produção brasileira. Vale lembrar que na semana passada o diretor de exploração e produção da Petrobras, Guilherme Estrella, revelou que a plataforma que estava perfurando no poço de Carioca (que teve a descoberta de pré-sal anunciada em setembro de 2007) teve de ser retirada "às pressas" para perfurar um poço em outro bloco na bacia de Santos, também na região de pré-sal.

Sem esquecer outras questões que vão além do operacional na questão petróleo, o presidente foi ainda mais claro ao dizer que considera necessário para aproveitar o petróleo recém-descoberto, mas que não discutiu "com ninguém o que fazer com o petróleo que pertence à União", reconhecendo que as áreas que não foram leiloadas "ainda são da União". Essa questão representa um duelo que não foi resolvido sequer entre a Petrobras e a Agência Nacional do Petróleo (ANP), que mantém posições diametralmente opostas sobre o que fazer com as novas áreas descobertas. O potencial dos campos de Tupi, Carioca e Júpiter deixa a questão da auto-suficiência assegurada como assunto superado, porque o que estará em jogo são os bilhões de barris de cada um desses novos poços.

Ontem , o valor de mercado da estatal brasileira só era inferior ao da Gazprom, da Petrochina e da ExxonMobil, exatamente pelo valor dessas novas descobertas. Porém, como alertou o presidente Lula, o modelo de exploração desses poços ainda não foi definido se com concessões, como praticado desde 1999, ou em regime misto, com concessões e partilha de produção. Vale lembrar que o regime de concessões foi responsável por dobrar a produção brasileira de 1,1 milhão de barris diários em 2000, para os atuais 2,1 milhões de barris diários. No final dos anos 90, os 90 blocos oferecidos pela ANP foram arrematados por empresas estrangeiras, em associação ou não com companhias nacionais, em regime de concessão, porque a discussão sobre monopólio estava superada. O alerta do presidente Lula de que as áreas dos novos poços não leiloadas "ainda são da União" reabre o debate.

É verdade que que a vontade do presidente expressa na entrevista é a de pensar seriamente "nos investimentos que podemos fazer" com esse novo petróleo. Lula mencionou o sonho de criar um fundo "para investir na educação neste País". Sem dúvida, é opção no caminho certo. Na entrevista, o presidente registrou que, em 93 anos, o Brasil construiu 140 escolas técnicas federais e que em seus oito anos de mandato "vamos entregar mais 214 unidades". A fragilidade dos resultados educacionais no Brasil são especialmente maiores no ensino médio, exatamente o que não oferece alternativas profissionais para os jovens. Nos últimos três anos, do 1,8 milhão de estudantes de ensino médio no Estado de São Paulo, 336 mil abandonaram a escola por falta dessa opção profissional. Uma pesquisa especializada mostrou que mais de 40% dos alunos que ingressam no ensino médio gostariam que a escola os capacitasse para "ingressar no mercado de trabalho", e quando descobrem que não serão atendidos apenas a abandonam. O presidente está certo em querer usar os recursos do novo petróleo para cuidar desse importante futuro, o da capacitação de sua mão-de-obra.

Transformar-se no terceiro ou quarto produtor de óleo mundial abrirá, sem dúvida, um novo papel para o Brasil no cenário mundial. Em maio, o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, depois de uma reunião que formalizava o "Grupo Bric", garantiu que os sete países mais ricos não tinham mais como tomar decisões sem ouvir Brasil, Rússia, Índia e China. Era a constatação de um fato na ordem internacional. Esse novo equilíbrio terá também de se acomodar à nova evidência de que o Brasil, em breve, será importante potência exportadora de óleo. O presidente Lula, com razão e na oportunidade correta, apenas formulou essa nova equação para a arquitetura do poder entre as nações.


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