Tecnologia faz reposição de reservas americanas superar amplamente consumo de gás natural

Acostumados a registrar, ano após ano, redução nas reservas provadas de gás natural nos Estados Unidos, os analistas da matéria foram surpreendidos agora em outubro com a notícia, divulgada pela US Energy Information Administration (EIA) de que, em 2007, os volumes que foram acrescidos a estas reservas superaram, em mais de duas vezes, a produção do país no mesmo período. Vejamos os números que atestam esta afirmação.

Segundo o EIA, a produção americana de gás natural no ano passado foi de 19,5 tcf (552,2 bilhões de m³), que equivalem a 1,513 bilhões de m³/dia, cerca de 30 vezes a produção brasileira. Entretanto, o que foi adicionado às reservas provadas chegou a 46,4 tcf (1.305,5 bilhões de m³), número recorde para um ano de trabalho. Com isto, as reservas provadas totais americanas atingiram 237,7 tcf (6,731 trilhões de m³) – uma situação sem dúvida confortável, modificando substancialmente o panorama futuro do gás na América.



Ainda no próprio relatório da EIA, encontramos a explicação para a alteração das perspectivas. “As adições refletem principalmente o rápido desenvolvimento das fontes não-convencionais, incluindo xistos (“shale”), metano contido em depósitos de carvão (“coalbed methane”) e formações arenosas de baixa permeabilidade (“tight low-permeability formations”, ou “tight sands”), dizem os técnicos da EIA. Inovações tecnológicas são a chave da acelerada viabilização destas fontes, há muito conhecidas, mas comercialmente inviáveis. Entre elas, novas técnicas de mineração (como o caso da fratura das rochas das grandes jazidas de xisto de Haynesville, Louisiania) e processos de tratamento mais eficientes, que reduzem progressivamente o custo do gás natural obtido, fazendo uma convergência positiva com os preços mais elevados de venda dos últimos anos.



Os volumes provenientes destas fontes, incorporados às reservas provadas no ano de 2007, já as tornam parte expressiva do total, como informa a publicação especializada Oil & Gas Journal. O gás contido no xisto, por exemplo, recuperável comercialmente, cresceu nada menos de 50% no ano, e já responde por 9% do total americano. O gás proveniente dos depósitos de carvão (“coalbed methane”) teve suas reservas aumentadas em 11,5% em 2007, e representa agora outros 9% do total. Há estados americanos especialmente beneficiados com a inclusão de reservas de fontes não-convencionais, como o Texas, que acrescentou 10,3 tcf (291,7 bilhões de m³), ampliando em 17% seu total, o Wyoming, que incorporou 6,2 tcf (175,6 bilhões), crescendo suas reservas em 26%, e o recordista, o Colorado, que adicionando 4,7 tcf (133,1 bilhões de m³), aumentou 27%.



Devemos ainda notar que, quando falamos de fontes não-convencionais, deixamos de lado a maior delas, os hidratos de metano, um tipo de formação de moléculas de gelo que aprisiona moléculas de CH4 em seu interior. Amplamente abundantes em regiões árticas e em várias plataformas continentais, os hidratos de carbono têm, segundo algumas avaliações, tanto gás quanto as demais fontes somadas, convencionais e não-convencionais. Nesta semana, na matéria “USGS estimates Alaskan North Slope holds 85,4 tcf of gas hydrate”, mostramos o interesse que vem despertando esta fonte de gás, não comercial, mas já próxima deste ponto.


A efervescência das atividades em fontes não-convencionais de gás natural nos Estados Unidos, contrastando com as poucas notícias que nos chegam do seu interesse no Brasil, mostram a extensão do chamado “technological gap”, que persiste, e talvez se alargue, entre os dois países. Temos, sem dúvida, um longo caminho pela frente.

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