A alternativa viável

Enquanto o mundo discute os prós e contras da utilização dos biocombustíveis e os veículos a célula de hidrogênio seguem como uma realidade comercialmente distante, o GNV ganha adeptos no mundo, em meio a menores preços e incentivos governamentais

Se daqui a 30 ou 50 anos o etanol irá realmente estar presente em boa parte de frota mundial ou se os veículos a hidrogênio já serão uma realidade cotidiana, não se sabe. De concreto temos apenas que, enquanto pesquisadores e governantes centram esforços para impedir o aquecimento global e diminuir a dependência do petróleo, o GNV (Gás Natural Veicular) vai pouco a pouco conquistando usuários em diversos países, em meio a preços favoráveis, políticas governamentais de incentivo e forte apelo ambiental.

Segundo dados da IANGV (Associação Internacional de Gás Natural Veicular), a frota mundial de gás natural já chega a 5,6 milhões de veículos, o que corresponde a um crescimento de 95% nos últimos três anos.

A ENGVA (Associação Européia de Gás Natural Veicular) estima que existam no mundo, atualmente, 10.584 postos que fornecem gás natural veicular. Só ano passado, o uso de GNV em todo o mundo cresceu 14%, com a China registrando taxa de 31% e a Ucrânia, de 49%, ante 25% no Brasil e 22% na Europa. E a expectativa é por uma expansão anual de 17,8% no número de veículos utilizando gás natural até 2020, quando deveremos atingir a cifra de 65 milhões. “Isso significa uma economia de oito milhões de barris de petróleo por dia, que seriam substituídos por gás natural ou biometano”, explica John Lyon, presidente da IANGV. “O gás natural é parte da solução para o problema de poluição, ao lado de outros combustíveis como o etanol e o biodiesel”, completa.

Jeffrey Seisler, diretor-executivo da ENGVA, lembra que até o momento o gás natural é o combustível alternativo com maior difusão no mundo e com chances concretas de ganhar cada vez mais espaço. Ele recorda que o tão esperado carro movido a célula de hidrogênio tem um custo muito mais elevado que o da gasolina e do diesel: tanto no que se refere ao preço do combustível como no preço do carro em si. Situação bem parecida com a dos carros elétricos, cujos custos ainda são proibitivos e a autonomia do veículo deixa muito a desejar.

Sem dúvidas, um dos principais incentivos à utilização do GNV é a questão ambiental. Afinal, com o gás natural é possível reduzir em até 25% as emissões responsáveis pelo efeito estufa. Para se ter uma idéia, a gasolina emite mais de 40 poluentes, ante cerca de seis do GNV.

Em recente estudo, dois cientistas noruegueses, Karl Hoyer e Erling Holden, analisaram os custos ambientais de diversos combustíveis, levando-se em conta cadeia e gastos energéticos, além da emissão de poluentes, desde a produção até o consumo no tanque. Em entrevista, Hoyer lembra que, apesar do gás natural ser “inferior” a outras soluções se pensarmos em emissões como um todo (não apenas dióxido de carbono), “nossas alternativas com gás natural tiveram boa performance, sendo que o melhor desempenho no ranking ficou por conta de veículo com célula de hidrogênio”, explica. Além disso, ele lembra que das cinco primeiras posições no ranking, quatro são alternativas que se baseiam no gás natural. “É importante enfatizar que o hidrogênio não é um combustível no sentido estrito, é apenas um transportador de energia que deve ser produzido a partir de fontes ricas em energia, como gás natural”, destaca. Na prática isso mostra a importância de se desenvolver a infra-estrutura para gás natural e buscar novas fontes, como o gás produzido a partir do lixo, já que não se trata de um combustível renovável.

O fator preço

Se do lado governamental a melhoria da qualidade do ar serve como catalisador para políticas a favor do gás natural, do ponto de vista do consumidor o preço aparece como principal motivo para conversão dos carros.

Brasil e Argentina, com frotas respectivas de 1,5 milhão e 1,4 milhão lideram o ranking global de GNV, aliando baixos valores para o gás e incentivos por parte do governo. Na Argentina, paga-se pelo gás natural cerca de 42,4% do valor da gasolina e do diesel, percentual um pouco acima do apurado no Brasil, de 38,7%.

No mesmo caminho vem o Paquistão, com 1,3 milhão de veículos em mais de 80 cidades, o que lhe confere o terceiro lugar no ranking global. Em março, já existiam cerca de 1.350 postos de abastecimento no país e outros 1.000 estão em construção. Entre os incentivos oferecidos pelo governo estão diferença de quase 50% entre o preço do gás natural e da gasolina, além de isenção de impostos e taxas na importação e vendas de equipamentos de gás natural.

Dentre as políticas consideradas de sucesso na utilização do gás natural veicular, destaque-se o caso do Egito, que passou de cinco postos e 180 veículos no início da década de 90 para cerca de 71 mil veículos e 128 postos em 2006, em meio a uma política governamental orientada para a redução da poluição do ar, especialmente na cidade do Cairo. O governo egípcio não precisou subsidiar as conversões, com os consumidores optando pelo gás natural por causa do diferencial de preço, sendo necessário apenas ofertar linhas de crédito para que a conversão fosse feita. Atualmente, o Egito conta com uma espécie de “cartão gás”, pelo qual os consumidores pagam o preço da gasolina/diesel, mas a diferença em relação ao custo do GNV é abatida do montante total que deve ao banco pela conversão.

Europa e EUA

Na Europa, cerca de 700 mil veículos já utilizam gás natural, com 2.300 postos disponibilizando o produto. O grande destaque fica por conta da Itália, com uma frota pouco superior aos 400 mil veículos e cerca de 543 postos de abastecimento.

Para se ter uma idéia da liderança italiana, o segundo colocado no ranking europeu é a Ucrânia com cerca de 100 mil veículos, seguida por Rússia, com 60 mil, e Alemanha, com 55 mil.

A Alemanha, no entanto, possui a maior rede de abastecimento de GNV da Europa, com 720 postos, ante 200 na Ucrânia e 215 na Rússia.

Jeffrey Seisler, diretor-executivo da ENGVA, recorda que os postos que vendem GNV na Europa ainda não conseguiram chegar a uma situação “ótima” economicamente. Para isso, destaca, seriam necessários cerca de 600 a 1.000 veículos por posto, situação encontrada apenas na Itália, com 702, e Bulgária, com 735.

A expectativa é que a Europa possa contar, em breve, com uma espécie de “corredor azul”, com postos capazes de abastecer os veículos com gás natural desde a Itália passando por Áustria, Alemanha e chegando à Suécia.

Assim como a Alemanha, a Itália primeiramente focou seus esforços nos consumidores que faziam longos trajetos e se beneficiariam do menor custo do gás natural (impulsionado por menores impostos), para depois chegar às frotas. Atualmente, cerca de 1.800 ônibus no país já usam esse combustível em mais de 50 cidades. Seisler explica que na Itália já existe, inclusive, proibição de circulação de veículos que usam gasolina ou diesel nos dias de elevada poluição. A restrição, no entanto, não vale para os veículos movidos a gás natural. O consumidor italiano paga pelo gás natural cerca de 44,2% do valor dos derivados de petróleo.

França e Suécia, por sua vez, adotaram outra estratégia para desenvolver o gás natural veicular em seus países, com o foco recaindo sobre as frotas. Na França, dos quase 9.000 veículos que utilizam GNV, cerca de 2.000 são ônibus, sendo que 30% dos novos ônibus já utilizam gás natural. Na Suécia, com frota de 11.515 veículos, a grande atração tem sido o biogás, que é gerado a partir da decomposição de material orgânico. Após passar por biodigestores, o lixo se transforma em biogás (composto basicamente por metano) e pode ser utilizado para abastecer veículos, inclusive os caminhões que recolhem o lixo.

Nos Estados Unidos, a frota é relativamente modesta, com aproximadamente 146 mil veículos usando gás natural, e uma rede com 1.600 postos, o que corresponde a apenas 0,0006% de sua frota total.

Para Seisler e Lyon, a pequena participação norte-americana se explica pela política de preços dos Estados Unidos, com tributações muito baixas que deixam a gasolina e o diesel muito baratos para o consumidor final, tirando parte do atrativo do gás natural.

A corrida asiática

O mercado asiático é uma das grandes apostas de expansão para os próximos anos, com particular expectativa em relação à China, Índia e Paquistão. Na Índia, já são 334,82 mil veículos utilizando o combustível, com 325 postos, enquanto na China o total chega a 127,12 mil veículos e 415 postos.

O Japão também começa a despontar nesse mercado, com a maioria de seus carros, inclusive, vindo com a opção de GNV de fábrica, algo ainda raro no mercado mundial. No final do ano passado o Japão possuía uma frota de quase 35 mil veículos, sendo a maioria de caminhões, com 350 postos em todo país.

Apesar de grande resistência das automobilísticas em lançar em escala comercial veículos de fábrica que utilizam gás natural, em todo o mundo já existem 65 empresas produzindo cerca de 260 moldes diferentes.

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