Preço do gás boliviano poderá cair até 50% em abril/09

Queda na cotação do petróleo faz especialistas preverem que o valor do gás importado através do gasoduto Bolívia-Brasil deverá baixar de US$ 9,00 para US$ 4,50/por milhão de BTU

A queda dos preços do barril de petróleo no mercado internacional pode ter dificultado a vida das petroleiras e das economias dependentes da extração do insumo, mas deverá facilitar a vida dos consumidores industriais brasileiros, tão prejudicada nos últimos meses pelo agravamento da crise financeira internacional.

Devido à baixa de mais de 70% da cotação nos últimos seis meses, o preço do gás da Bolívia deverá cair pela metade em abril, quando está previsto o reajuste trimestral pela fórmula de cálculo negociada pelos governos boliviano e do Brasil.

Especialistas do setor preveem que o valor do insumo importado do vizinho andino deverá cair dos atuais US$ 9.00 para US$ 4.50 por milhão de BTU, se a cotação do barril permanecer no atual patamar de US$ 40 nos próximos três meses.

Responsável pelo cálculo, o consultor Marco Tavares, da Gas Energy, avalia, no entanto, que os preços do petróleo deverão se recuperar no mercado internacional, a partir de abril de 2009. Passado o período de maior impacto da crise nos próximos três meses, a tendência é que o valor do insumo comece a se recuperar para um patamar médio entre US$ 60 e US$ 70.

Ao ressaltar que tais projeções levam em consideração o melhor cenário, Tavares pondera, no entanto, que um eventual agravamento da crise financeira internacional poderá levar as cotações do insumo a um movimento contrário, de queda para US$ 30.

Tendência favorece o Brasil

Os preços do gás boliviano, que motivaram a pior polêmica dos últimos anos entre os dois países em 2005, são revisados a cada três meses, a partir de uma fórmula de cálculo que leva em consideração as cotações de uma cesta de óleos, além da taxa de câmbio.

A fórmula tem se revelado favorável ao governo boliviano, que tem se beneficiado da alta das cotações do barril de petróleo no mercado internacional. Nos últimos meses, porém, a reversão da tendência, como conseqüência da crise financeira internacional, reverteu a equação em favor do Brasil.

Importador do equivalente a 30 milhões de metros cúbicos/dia do insumo, o país tem no gás boliviano praticamente a metade da oferta do insumo consumido no mercado interno.

O secretário estadual de Energia do governo do Rio Grande do Norte, Jean Paul Prates, também acredita na tendência de queda dos preços do insumo importado da Bolívia, em 2009. Pondera, no entanto, que as limitações de suprimento da Petrobras podem contribuir para a manutenção dos preços do gás praticados no Brasil.

Quanto menor o preço do insumo, justifica, maior a tendência de aumento da demanda. Em tempos de pujança econômica, a petroleira brasileira teria dificuldades de fazer frente ao incremento do consumo. Por isso mesmo, resta saber se no atual cenário de desaquecimento as dificuldades permanecem para a estatal.

Até novembro de 2008, segundo dados da ANP, o Brasil produziu 19,7 bilhões de metros cúbicos, volume 19,3% maior do que o registrado em igual período do ano passado. De acordo com a Associação Brasileira das Empresas Distribuidoras de Gás Canalizado (Abegás), a demanda em 2008 correspondeu a uma média de 51,2 milhões/dia ante aos 45,1 milhões de metros cúbicos de 2007. A previsão da associação é que a demanda cresça 8% em 2009, para 55,3 milhões de metros cúbicos por dia.

Outro fator que, segundo Prates, vai contribuir para reduzir os preços do insumo importado da Bolívia será a tendência de queda dos valores de comercialização do Gás Natural Liquefeito (GNL), como consequência da expansão das reservas do insumo nos Estados Unidos, a partir da comercialização de fontes não-renováveis. A tendência, projeta o secretário, será de queda dos atuais US$ 20 por milhão de BTU para US$ 5 por milhão de BTU.

Recentemente, lembrou, foram anunciadas novas descobertas de reservas alternativas em terra naquele país, como gás de carvão e arenito.

Com isso, os Estados Unidos vão migrar da atual posição de cliente de GNL para produtor do combustível. Essa reversão já foi percebida pelos grandes produtores mundiais do insumo, que preocupados com a provável perda de um cliente estudam a criação de um cartel, semelhante à Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep).

"O Brasil poderá negociar com a Bolívia a partir do próximo ano. O governo deverá usar o argumento da construção de duas plantas regaseificadoras, uma em Pecém e outra no Rio de Janeiro, para baixar o preço atual. Com isso, a Bolívia vai depender do mercado brasileiro e nós não seremos tão dependentes do gás vizinho", explicou Prates.

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