A tecnologia em favor da vida no trânsito

3 de março de 2009 - Acontecimentos trágicos, como o acidente ocorrido com o vôo 3054 causam imensa comoção nacional. Naquele 17 de julho de 2007 todos nós ficamos perplexos e impotentes diante do sofrimento das famílias das 199 vítimas. É impensável que nossa sociedade aceite que duas centenas de vidas voltem a se perder de novo em um acidente como aquele.

No entanto, isto acontece. A cada 48 horas mais 200 vidas são perdidas em acidentes no Brasil. Não todas de uma só vez, e também não dentro de uma aeronave. Esta tragédia acontece espalhada nos milhões de quilômetros que compõem a malha viária brasileira. Motoristas, passageiros e pedestres que perdem suas vidas no anonimato das ruas e estradas, e que não são vistos nos números das grandes tragédias, por não estarem expostos em horário nobre.

Já faz alguns anos que a segurança no trânsito entrou na agenda prioritária de muitos países. Vários já assumiram publicamente o compromisso de redução de acidentes e mortes, não só com discursos, mas com metas definidas e contas a prestar à sociedade. Na Comunidade Européia, o objetivo é reduzir as mortes em 50% até 2010 e no Japão 50% até 2018. E mesmo na China, o que se espera é reduzir as mortes em 10% até 2010.

Um trânsito seguro passa por três pilares: pessoas (comportamento ao dirigir, hábitos culturais), infra-estrutura (conservação das vias, sinalização) e o automóvel (suas tecnologias para evitar ou minimizar os efeitos de um acidente). No Brasil é comum o debate sobre os dois primeiros tópicos e, inegavelmente, alguns avanços já são perceptíveis. Mas é sabido também que mudança de comportamento, e mesmo de infra-estrutura, fundamentais para um trânsito seguro, são investimentos de longo prazo. Todo esforço exige tempo e persistência para que as próximas gerações colham os frutos destes investimentos.

Por outro lado, a tecnologia, principalmente a eletrônica, já invadiu nossas vidas provocando mudanças com uma velocidade espantosa. Ela está presente em tudo que fazemos: desde os celulares que se renovam com funções incríveis até a troca de informações seguras via internet.

Esta tecnologia também está nos automóveis. Há alguns anos, falar em pedágio eletrônico nas estradas, radares que lêem placas ou comunicação sem fio nos automóveis era coisa de ficção. Hoje em dia, nem novidade é mais. Devido à velocidade com que se inova, a tecnologia no automóvel é sem dúvida a forma mais rápida de obter redução de acidentes e mortes. É por este caminho que muitos países estão seguindo sem, necessariamente, inviabilizar a compra destes automóveis; muito pelo contrário.

Duas tecnologias pioneiras da década de 70 se tornaram equipamentos básicos de segurança no mundo todo: freios ABS e airbags. O primeiro, devido a sua capacidade de evitar um acidente e por ser plataforma para outras tecnologias ainda mais avançadas. O segundo, porque, associado ao uso do cinto de segurança, minimiza consideravelmente os efeitos de um acidente.

Juntas, estas tecnologias salvam milhares de vidas em vários países, e poderiam salvar muito mais também no Brasil. Atualmente, cerca de 76% da produção mundial de veículos já sai de fábrica com ABS. Nos EUA, Europa e Japão as taxas são, no mínimo, de 90%. Na Coréia é de 69%, na China 64%. No Brasil, estima-se que apenas 15% dos veículos saiam de fábrica equipados com este sistema de segurança.

Estes dados comprovam que o Brasil ainda tem muito que avançar quando o assunto é a oferta de automóveis mais seguros. A popularização de itens como ABS e airbags trariam uma contribuição inestimável para a preservação de vidas, oferecendo ao brasileiro o que já é de direito em outros países.

Não se trata de tornar a conta mais cara para o consumidor, pois a tecnologia se torna mais barata com ganhos de escala. Além disso, a redução no número de acidentes significa também redução de gasto público, dinheiro que, no final das contas, sai do bolso do próprio consumidor. Segundo estudos do IPEA e do Denatran, os gastos com acidentes são da ordem R$27 bilhões ao ano - recurso este que poderia ser bem mais útil se investido em pessoas e infra-estrutura, tudo em favor da vida no trânsito. (Carlo Gibran - Gerente de marketing da unidade Cha - Gazeta Mercantil)

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