Dilemas competitivos do Gás Natural

Desde que a Crise Financeira Global despontou em setembro de 2008, os mercados globais de energia tornaram-se extremamente complicados e incertos. As referências alteraram-se completamente impactando preços e competitividades absolutas e relativas. Por exemplo, segundo a ANP, o preço médio do barril de petróleo importado pelo Brasil declinou de aproximadamente US$ 112, em 2008, para US$ 47 (entre janeiro e fevereiro de 2009). O preço médio do barril de petróleo exportado pelo Brasil declinou de US$ 82 a US$ 28 no mesmo período. Essas quedas explicam-se principalmente pela diminuição do consumo de energia em escala planetária, a qual impõe ajustes profundos na oferta de todos os energéticos. Porém, o que fazer em momentos de tanta incerteza em relação ao futuro e tantas oscilações bruscas no presente?

Essa é uma questão particularmente importante na relação entre o Gás Natural e o Óleo Combustível. Há verdadeiras “bolhas de suprimento de gás natural e óleo combustível” disputando o mesmo consumidor. O alto índice de chuvas reduziu o consumo de gás e óleo combustível em usinas termelétricas. Por outro lado, a crise global reduziu a demanda de energia nas indústrias (tanto no Brasil como no exterior). As tabelas 1 & 2 abaixo demonstram como os mercados encontram-se oscilantes ao extremo.

Com as oscilações mostradas nas tabelas, pouco sentido tem falar em médias. De qualquer forma, considerando variações médias mensais entre setembro de 2008 e fevereiro de 2009, pode-se verificar que as exportações e as vendas domésticas de óleo combustível diminuíram respectivamente de 9,3% e 4,1% ao mês (as importações também sumiram). Porém, a produção de óleo combustível cresceu de 1,4%. Por isso mesmo, surgiu uma bolha de suprimento de óleo combustível no mercado doméstico, aumentando substancialmente a pressão do óleo combustível sobre o mercado industrial do gás natural.

Em respeito ao gás natural, o consumo doméstico reduziu-se de 6,1% ao mês, impondo cortes de produção e importação de respectivamente 1,9% e 7,1% ao mês. Surgiu, portanto, uma verdadeira “bolha de gás” igualmente. Verifica-se na tabela 3 que essa bolha poderia ser ainda maior se a Petrobras não tivesse criado instrumentos para absorver uma quantidade crescente do gás. Assim, a reinjeção e o consumo de gás nas atividades de E&P aumentaram respectivamente de 4% e 1,3% ao mês. Felizmente, o quadro de super oferta de gás AINDA não se traduziu em desperdícios de recursos naturais (as queimas e perdas continuaram a diminuir de 1,1% ao mês).

Nesse embate entre o gás natural e o óleo combustível pelo mesmo consumidor, há, aparentemente, um problema de competitividade de curto prazo do gás natural frente ao óleo combustível. Essa perda de competitividade pode ser ilustrada através do Gráfico 1 que apresenta a evolução das relações de preço entre o gás natural importado da Bolívia e o petróleo (e seus derivados) (importado e exportado).

Entre 2000 e 2002, o mercado de gás natural no Brasil apresentou taxas de crescimento elevadas, sendo sustentado por um gás natural importado da Bolívia. A relação de preços entre o gás e o petróleo importados aumentou de 43,3% (2000) a 51,5% (2002). Em seguida, o petróleo apresentou uma disparada de preço que durou até o início da crise econômica global em meados de 2008. O aumento do preço do gás (apesar de todos os conflitos com a Bolívia) não acompanhou com a mesma velocidade. Em 2007, a relação de preços entre o GN Imp e o Pet Imp havia caído para 36%. O consumo de gás cresceu mais rapidamente do que a oferta gerando problemas de risco de desabastecimento, o que obrigou vários consumidores a buscarem flexibilidade através de sistemas flexfuel.

A partir de 2007, a Petrobras iniciou um processo de ajuste moderado (e de longo prazo) do preço do gás e de sua relação com o petróleo, que aumentou a 38% em 2008. Porém, no início de 2009, essa relação saltou para 72%. Evidentemente, os consumidores flexfuel imediatamente saltaram do gás natural para o óleo combustível.

Ora, em um mercado super ofertado de energia, e marcado por fortes incertezas, que têm levado a fechamentos ou reduções substanciais de produção nas indústrias, é natural que os consumidores de gás clamem por maior competitividade do gás em relação ao óleo combustível. A partir de meados de abril, a Petrobras propõe a realização de leilões de contratos de curto prazo de gás natural, cujo objetivo é reduzir o preço para deslocar o óleo combustível e desovar os volumes excedentes de gás. Em princípio, o instrumento de leilões de curto prazo se presta a lidar com tais situações. Contudo, não se pode deixar de apontar algumas reflexões com viés mais estratégico.

1. A real competitividade do gás em relação ao óleo combustível:

Sim, houve uma mudança muito brutal nos preços relativos do GN e do OC, comprometendo a competitividade do gás entre o final de 2008 e início de 2009. Contudo, o mercado encontra-se hoje em uma situação similar àquela do início dos anos 2000, onde o preço do gás frente ao preço do petróleo era maior e não impediu o rápido desenvolvimento do consumo de gás. A estratégia de aumento do preço do gás introduzida pela Petrobras a partir de 2007 foi atropelada pela realidade de curto prazo, porém continua sendo coerente no longo prazo, pois é a única forma de se garantir um crescimento sustentável da oferta, reduzindo as ameaças de gargalos de abastecimento no futuro.

2. Leilões e suas contradições

O instrumento de leilões de curto prazo está sendo apresentado às distribuidoras de gás natural, às quais terão dificuldades para absorvê-lo em grande escala. Em geral, as distribuidoras têm consumidores cativos (isto é, que adotam tecnologias adaptadas exclusivamente ao gás, sendo irreversíveis) e consumidores flex (os quais podem rapidamente migrar para o óleo combustível quando as condições de mercado são mais favoráveis). Contratos de curto prazo terão pouco ou nenhum efeito sobre os consumidores cativos. Na verdade, as distribuidoras necessitam evitar grandes substituições de contratos antigos mais caros por contratos novos mais baratos, pois podem canibalizar seu próprio mercado. Por outro lado, oferecer os novos contratos mais baratos apenas aos consumidores flex poderá gerar indignidade da parte dos demais consumidores, pois se estará premiando o comportamento oportunista dos consumidores, e ainda não há garantia de que a estratégia permitirá re-fidelizar os consumidores perdidos.

3. Olhando as demandas do consumidor fiel

Em uma situação de abundância, teme-se a perda de foco em relação aos consumidores fiéis, isto é, aqueles que investiram no passado e tornaram-se irreversíveis em relação ao gás, tirando o maior valor adicionado do uso desse combustível. Claro que nesse cenário de crise econômica profunda, todos os consumidores estarão contentes se puderem economizar em sua conta energética. Porém, dificilmente uma empresa será salva porque reduziu suas despesas com energia. Por outro lado, olhando-se um passo a frente, como sugere o nosso colega Paul Poulallion, os sistemas de suprimento de energia tendem a ficar restritos, tendo em vista a redução dos investimentos. Assim, os consumidores cativos verão seus riscos de suprimento aumentar no futuro. Seria possível utilizar esse momento de transição para se construir estoques estratégicos que garantam maior segurança de suprimento aos consumidores cativos?

4. Papel social e universal do gás

E nessa mesma transição, quando há disponibilidade de gás e preços que podem ser substancialmente mais baixos (ainda que transitoriamente), pode-se conceber um plano agressivo de captação de novos consumidores, ainda não conectados ao sistema de suprimento de gás? Como se promover investimentos massivos na conversão de novos consumidores, na incorporação de tecnologias e equipamentos a gás, em instalações e construção de logísticas apropriadas? Quando o país necessita de investimentos que possam gerar empregos e movimentar a economia, talvez seja mais razoável imaginar um papel mais social e universal do gás ao invés de se vislumbrar reduções de custos de energia para os consumidores existentes.

5. Criando “bolhas de consumo” compatíveis com as “bolhas de oferta”

Por fim, como não se podem esquecer os desafios de curto prazo de se desovar uma bolha de suprimento de gás, talvez a solução mais plausível encontre-se em se identificar potenciais bolhas de consumo, que possam ser criadas rapidamente, para absorver o excesso de gás, mas sem gerar tumulto no mercado como um todo, e sem gerar passivos contratuais para o futuro (isto é, a indústria de gás não pode se obrigar a garantir suprimentos de gás barato no médio e longo prazo).

Fonte: http://www.gasnet.com.br/conteudos.asp?cod=6005&tipo=Artigos&categoria=1


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