Gás natural: o desperdício continua

O Jornal do Brasil, na sua edição de 27 de maio de 2002, ou seja, há sete anos e meio, com o título Petrobras: Desperdício de gás chega a US$ 250 milhões, já mostrava a dimensão do problema. De fato, o ano de 2002 fechou com uma média diária de 9,269 milhões de m³ de reinjeção (21,81%) e 5,844 milhões de m³ de queima (13,75%), ou seja, 15,113 milhões de m³. Naquele mesmo ano, a média diária de importação foi de 14,436 milhões de m³, pelos quais pagamos US$ 424,891 milhões, ou seja, em 2002 o nosso desperdício foi maior do que o volume importado (fonte: ANP). Infelizmente, apesar das inúmeras promessas de que o problema seria resolvido, as soluções ficaram nos discursos e o tamanho do rombo não parou de crescer, como explicitado mais abaixo e pode-se ver claramente quando se compara com os números de 2008.

Entre os meses de janeiro e setembro deste ano, o Brasil importou da Bolívia 6,726 bilhões de m³ de gás natural – o que dá uma média diária de 24,638 milhões de m³ –, pelos quais desembolsou US$ 1,286 bilhão.

No mesmo período, foi produzida uma média diária de 57,331 milhões de m³, dos quais 11,809 milhões de m³ (20,60%) foram reinjetados; 9,881 milhões de m³ (17,23%), queimados; 8,163 milhões de m³ (14,24%) utilizados pela Petrobras; e 27,479 milhões de m³ (47,93%) direcionados para o mercado consumidor. Ou seja, somando os volumes reinjetados e queimados – 21,689 milhões de m³/dia –, alcançamos o equivalente a 37,83% de todo o gás natural produzido, o que é um verdadeiro desperdício de dinheiro, pois, considerando o valor pago pelo gás boliviano (média de US$ 5,12/MMBTU), esse percentual alcança no período citado a soma de US$ 1,132 bilhão. Ou seja, temos prejuízo em dobro, pois, se de um lado gastamos para extrair o gás natural para depois reinjetá-lo e queimá-lo, do outro gastamos bilhões de dólares em importações.

Por que tamanho desperdício de dinheiro se há uma enorme demanda reprimida para o gás natural? A resposta é simples: falta-nos infraestrutura para transporte e distribuição do energético, como de resto para todos os outros setores como portos, hidrovias, rodovias, ferrovias, aeroportos, além, é claro, da crônica falta de refinarias, o que nos obriga a vender o petróleo pesado – mais barato – e comprar o leve, mais caro. (Por falar em refinarias, as quantas andam as Premium 1 (MA) e 2 (CE), que segundo o ministro Lobão seriam iniciadas em 2009?).

Nos últimos anos foram executadas algumas linhas no Sudeste, iniciada a construção do gasoduto que liga Coari a Manaus, com extensão de 383 km, e o Gasoduto do Nordeste (Gasene). No caso desse gasoduto, já foram concluídos os trechos entre Cabiúnas (RJ) e Vitória – Gascav com extensão de 300 quilômetros – e dessa capital a Cacimbas, com extensão de 129 quilômetros, sendo que atualmente está em construção o trecho entre Cacimbas a Catu, na Bahia – o Gascac – com extensão de 940 quilômetros.

Felizmente, deixaram de lado o Gasoduto da Unificação – Gasun – que foi aprovado através da Medida Provisória 127/2003. Planejado para ter 5.100 quilômetros de extensão, seria um ramal do gasoduto Bolívia-Brasil, que partiria de Mato Grosso do Sul ou de São Paulo e passaria pelos estados de Goiás, Distrito Federal, Tocantins, Piauí, Maranhão e Pará. Não obstante o empenho da então ministra de Minas e Energia e atual ministra da Casa Civil Dilma Rousseff, que, segundo o Estadão de 28/12/03, “determinou que o projeto receba um 'certificado de enquadramento', que fará com que ele possa absorver recursos da Conta de Desenvolvimento Energético (CDE)”, ele não foi contemplado no PAC em 2007. A construção desse gasoduto, como previsto, seria um total contrassenso, já que o mesmo transportaria gás importado da Bolívia, enquanto desperdiçamos milhões de m³ de gás nacional e outros tantos bilhões de dólares.

Não resta dúvida de que o Centro-Oeste e o Norte necessitam de gás, mas há que buscar-se alternativas no sentido de aproveitar ao máximo o gás produzido no Brasil. Acredito que a melhor alternativa seria conectar o Gasun na ponta do gasoduto Nordestão ou então construir uma ramal a partir do Gasene.

Também nos tranquiliza o fato de o presidente Lula ter perdido o entusiasmo a respeito do “Gasoduto do Sul”, o maior mico que Hugo Chávez queria empurrar para o Brasil. O megalômano e antieconômico projeto, de 9.283 quilômetros de extensão, demandaria recursos acima de US$ 25 bilhões e transportaria gás desde a Venezuela (será que existe tanto como alardeia o bolivariano?), passando de Norte a Sul pelo Brasil até chegar a Buenos Aires, sem que alguém informasse de onde viria o financiamento e o custo final do gás natural para o consumidor.

Enquanto isso, continua o desperdício do gás natural e bilhões de dólares indo para o ralo, sem que alguma autoridade tome uma providência a respeito e aponte uma solução para o problema.


Fonte: Humberto Viana Guimarães, Jornal do Brasil, 15/11/09

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