Empresas investem em cogeração para fugir de blecautes. Potencial é de meia Itaipu

Durante o apagão do último dia 10, as fábricas de cerveja da mexicana Femsa em Jacareí (SP) e Pacatuba (CE) continuaram a todo vapor. Não se perdeu nada da produção e nenhum funcionário ficou no escuro. As duas unidades contam com um sistema próprio capaz de gerar 100% da energia consumida pelas máquinas. O exemplo da Femsa, dona da Kaiser e maior engarrafadora da Coca-Cola no Brasil, não é isolado. Depois do racionamento de 2001, empresas de vários setores passaram a investir ou redobraram suas apostas na construção de sistemas alternativos para escapar ao fantasma de novos apagões e também amenizar os custos com a compra de energia.

Dados oficiais do setor indicam que a energia gerada por projetos de autoprodução e cogeração já soma cerca de sete gigawatts/médios, mais de um quarto do consumo do parque industrial no país.

— Somados, os projetos de cogeração em todo o país têm potencial para gerar o equivalente a meia Itaipu.

Só São Paulo poderia gerar mais uma Itaipu inteira em até dez anos — afirmou o presidente da Associação da Indústria de Cogeração de Energia (Cogen), Carlos Silvestrini.
No caso da energia produzida a partir de gás natural ou biomassa (4,3 GW/médios), a Cogen calcula que pelo menos 90% são aproveitados pelas próprias empresas. O restante é repassado às concessionárias. A entidade produziu estudo para identificar o potencial de crescimento do setor.
Só no caso do estado de São Paulo, a avaliação é que existe espaço para ampliar a capacidade instalada em mais 14 GW nos próximos dez anos, o que poderia representar investimentos de até R$ 35 bilhões. A maior parte desses recursos seria usada na importação de turbinas e motores a gás, ainda sem produção no país.
Além das fábricas de Jacareí e Pacatuba, a Femsa também instalou uma planta de cogeração em Jundiaí (Região Metropolitana de São Paulo), onde é feito o engarrafamento de refrigerantes.

Usando o gás natural como fonte primária de energia, a empresa consegue produzir não apenas eletricidade mas também vapor, água gelada, ar-comprimido e gás carbônico.
São 7,5 megawatts/médios de geração, suficientes para atender a 40% das necessidades da unidade.

— Juntas, as três fábricas produzem 20% de toda a energia consumida pelas 12 unidades da Femsa no país — afirmou o gerente de planta de Jundiaí, Alexandre Tortorelli.

Economia de 15% na conta de luz
Só neste ano, a multinacional americana Cargill vai investir R$ 80 milhões para aumentar a capacidade de cogeração de seu complexo industrial de Uberlândia (MG), onde é feito o processamento de milho e a produção de ácido cítrico. São 20 MW de capacidade instalada, gerada a partir do reaproveitamento do cavaco de madeira certificada e do bagaço de cana.
Inaugurada este ano, a unidade de processamento de soja e refino de óleo de Primavera do Leste (MT) pode produzir mais quatro MW de energia. Segundo a empresa, o que é gerado através da cogeração permite uma economia anual de 15% nas despesas regulares com a conta da luz. Outra vantagem: no apagão da semana passada, Primavera do Leste foi outra fábrica que não ficou no escuro.
— Em 2001, 32% de nossa matriz energética eram compostas por biomassa.
Neste ano, essa fatia já é de 62% — disse o diretor de Assuntos Corporativos da Cargill, Afonso Champi.

Além da cogeração, as empresas têm investido na construção de usinas hidrelétricas próprias ou térmicas e em pequenas centrais hidrelétricas (PCHs). De acordo com a Associação Brasileira dos Investidores em Autoprodução de Energia Elétrica (Abiape), grandes grupos empresariais como mineradoras e siderúrgicas têm produzido 3,2 GW/médios.

Empresa intensiva na utilização de energia, a Votorantim vai inaugurar até o início de 2010 mais duas usinas próprias. A primeira ficará no Rio ItajaíAçu, em Ibirama (SC), e terá capacidade de 182,3 MW. O outro projeto é em Itarumã (GO) e vai garantir mais 93 MW. Com dois GW de capacidade já instalada, o grupo administra 31 hidrelétricas e quatro térmicas. Em 2008, essa estrutura foi responsável por 62,5% do consumo do conglomerado.

Os autoprodutores reclamam da falta de incentivo do governo e dizem que a energia gerada de suas usinas poderia ser usada para o abastecimento do resto do mercado. O presidente da Abiape, Mário Menel, afirma que o modelo do setor elétrico aprovado em 2004 impôs às empresas mais encargos e instabilidade regulatória.

— A estimativa é que deixamos de investir R$ 3 bilhões por ano — afirmou ele.

Fonte: Aguinaldo Novo, “O Globo”, 24/11/09

Voltar