A peneira do Ártico


Oceano lança 7,7 milhões de toneladas de metano por ano na atmosfera

Uma grande reserva de metano, gás-estufa 21 vezes mais potente do que o dióxido de carbono, está se abrindo. Pesquisadores da Universidade do Alasca descobriram diversas perfurações na camada de gelo que era tida como impermeável. A liberação do gás para a atmosfera, se não for interrompida, pode provocar mudanças climáticas ainda mais drásticas do que as já estudadas.

- A quantidade de metano que vaza naquela região é comparável àquela liberada por todos os outros oceanos do planeta - alerta Natalia Shakhova, coordenadora da pesquisa e autora de um artigo publicado na revista "Science".

O Ártico, segundo Natalia, liberaria cerca de sete teragramas anuais para a atmosfera. Cada teragrama equivale a 1,1 milhão de toneladas.

- Se o permafrost (a camada de gelo permanente) continuar mostrando sinais de desestabilização, esta quantidade crescerá significativamente - adverte.

A concentração atmosférica de metano varia de acordo com a temperatura global - os índices costumam ser maiores em períodos quentes. No Ártico, este índice, hoje, é o maior até agora observado.

Pesquisas relacionadas ao gás na década passada mostraram que, quanto maior a latitude, menor era a emissão de metano. Os estudos, porém, eram restritos à superfície terrestre. Em 2003, a equipe de Natalia colheu amostras no Oceano Ártico. Descobriu-se que mais de 80% das águas profundas e metade das águas de superfície tinham níveis de metano oito vezes maior do que a água normal de superfície. A constatação, combinada a dados de expedições anteriores, mostrou que o metano estava não apenas dissolvido na água, como também borbulhando para a atmosfera.

Parte da área estudada preocupa a equipe por ser muito rasa, com menos de 50 metros de profundidade. Em águas profundas, o metano se oxida e se transforma em gás carbônico antes de atingir a superfície. Mas não há tempo para estas reações químicas em áreas superficiais.

Os gases-estufa liberados ali são ainda mais danosos.

- O lançamento de apenas 1% do metano que se acredita estar armazenado no Ártico pode aumentar a carga atmosférica do gás em até quatro vezes - explica Natalia.

- É difícil prever quais seriam as consequências climáticas.

A concentração atmosférica de metano teria mais do que dobrado desde a Revolução Industrial. Cerca de 60% são provenientes da atividade humana, enquanto o resto tem causas naturais, como, por exemplo, a decomposição de material orgânico.

Fonte: “O Globo”, março/10

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