Mercado mundial de gás passa por crise de abundância

Descobertas de gás natural nunca foram a prioridade de empresas estrangeiras com atuação no Brasil, uma vez que o amplo domínio da Petrobras sobre a rede de transporte torna o mercado interno praticamente inacessível. E, neste momento, a opção pelo gás natural liquefeito (GNL), que permite o transporte marítimo do produto, também se mostra pouco atrativa.

O mercado mundial de gás apresentou crescimento vertiginoso nos últimos anos. Agora, há excedente de oferta no mercado externo, com reflexo direto nos preços de venda do produto: a cotação-referência no Atlântico, Henry Hub, estava em fins de março/10 em US$ 4 por milhão de BTU, um terço do pico atingido antes da crise.

Some-se a isso o desenvolvimento de tecnologias para extrair gás do xisto, que evoluiu no período de crescimento econômico anterior à crise. Expectativas otimistas apontam que o xisto, um tipo de rocha que contém matéria orgânica energética, poderá levar os Estados Unidos à autossuficiência energética. Trata-se do maior consumidor e importador global de gás natural.


As mudanças no cenário têm tirado o sono das empresas do setor, expostas como nunca às incertezas do mercado de gás natural. "Onde costumávamos ver um mercado apertado, vemos hoje um mundo inundado de gás", disse, em palestra proferida em Houston, no início do mês, o presidente da Eni, Paolo Scaroni.

Há notícias de suspensão de investimentos em novos campos produtores em todo o mundo. No Brasil, a Petrobras vem mantendo a produção abaixo da capacidade, com o fechamento de poços, por conta da demanda deprimida. Situação semelhante vive a Bolívia, cuja produção é fortemente atrelada ao mercado brasileiro.


(*) É repórter do ‘Estado” na sucursal do Rio de Janeiro


Fonte: “O Estado de S.Paulo”, 26/03/10

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