Cresce o desperdício de gás natural

Enquanto analistas prevêm um apagão no setor, o país deixa de utilizar 30% do insumo produzido. Enquanto muitos analistas não descartam um apagão do gás natural a partir de 2009 no Brasil, a Petrobras e outras petrolíferas que exploram o setor continuam desperdiçando parte do energético retirado dos poços brasileiros, em função da falta de infra-estrutura (gasodutos e seus ramais) para escoar toda a matéria-prima. De janeiro a maio deste ano, a Petrobras e outras empresas do setor deixaram de aproveitar 14,78 milhões de metros cúbicos por dia, em média, o que, convertido em valores, equivale a perdas no período de US$ 360 milhões, segundo levantamento feito pelo engenheiro civil e consultor Humberto Viana Guimarães, com base em dados da Agência Nacional de Petróleo (ANP).

Na atividade de extração do petróleo, dependendo do perfil do poço explorado, o gás natural vem associado ao óleo. Assim, como as companhias petrolíferas não têm condições de colocar no mercado todo o gás retirado - sobretudo por falta de infra-estrutura -, a única saída é reinjetar no solo parte do volume do gás ou queimá-lo.

Segundo Guimarães, os índices de queima e reinjeção do gás cresceram este ano em relação ao ano passado. O percentual de gás retirado dos poços e não aproveitado subiu para 30,34% até maio, enquanto a taxa para o mesmo período de 2006 estava em 27,93%, época em que foram reinjetados ou queimados 13,46 milhões de metros cúbicos, o equivalente a US$ 324 milhões.

"Em qualquer lugar do mundo, nenhuma empresa vai conseguir 100% de aproveitamento do gás natural produzido, mas queimar e reinjetar mais de 30% da produção também extrapola a lógica", afirma Guimarães. Ainda segundo o consultor, a produção brasileira do petróleo teve um ligeiro aumento no período de janeiro a maio, de 1,1%, saltando de uma média de 48,205 milhões de metros cúbicos por dia em 2006 para 48,741 milhões de metros cúbicos este ano.

Na avaliação de Guimarães, o fato do Brasil ser importador de gás agrava o problema. "É um contra-senso que de um lado gastemos US$ 622 milhões em importações de gás (valores apurados pela ANP até maio) e de outro queimemos e reinjetemos o equivalente a US$ 360 milhões", compara Guimarães, que culpa o governo federal pela falta de planejamento voltado exclusivamente para o setor. "Faltou interesse em implementar o gás natural na base da matriz energética", critica o engenheiro. "Apesar do tamanho do potencial de reservas de gás no País - que podem chegar a 880 bilhões metros cúbicos -, ainda não existe um gasoduto de grande porte exclusivamente nacional, nos mesmos moldes do Gasbol (consórcio da Petrobras com outras petrolíferas estrangeiras e responsável por escoar o gás boliviano)", acrescenta.

Gargalo em 2009

Em estudo divulgado recentemente, Rafael Schechtman, diretor do Centro Brasileiro de Infra-Estrutura (CBIE), não descarta uma situação para o Brasil, a partir de 2009, semelhante à vivida hoje pela Argentina, que sofre com a escassez de eletricidade. Segundo ele, a participação das termelétricas no parque gerador do País vem crescendo acentuadamente nos últimos dez anos, passando de 4,1 GW em 1996 (7% da capacidade instalada total) para 16 GW (ou 18% da capacidade total), com as unidades a gás natural correspondendo a quase 60% da capacidade térmica.

"A expansão da geração termelétrica, porém, esbarra na garantia de suprimento de gás natural", afirma Schechtman. Apesar dos planos de expansão da oferta de gás nacional da Petrobras, segundo o estudo do diretor do CBIE, existem dúvidas se o seu volume e ritmo serão adequados para suprir a crescente geração termelétrica.

Em 2008, de acordo com cenário traçado pelo CBIE, somente 35% da geração a gás poderia ser despachada e somente em 2009, com o início das importações de Gás Natural Liquefeito (GNL), seria possível aumentar o despacho para 50%. "Mesmo em 2011, com plena oferta de gás, as usinas termelétricas a gás ainda sofreriam uma restrição de 25% de sua capacidade de geração", diz Schechtman.

Ainda de acordo com o estudo, o pleno atendimento às térmicas criará gargalos no suprimento aos outros setores de consumos, a exemplo do que ocorre atualmente na Argentina, que obrigou a redução de gás para a indústria, priorizando a classe residencial. Schechtman lembra que recentemente o ministério de Minas e Energia revelou que trabalha para apresentar um plano de contingência para o setor de gás natural, cujo objetivo principal é garantir às usinas térmicas prioridade no suprimento de gás. "Na prática, diz o estudo, isto quer dizer que, se faltar gás para atender todo o mercado, não serão respeitados os contratos de fornecimento da Petrobras com as distribuidoras estaduais de gás e destas com seus clientes". Os maiores prejudicados serão as distribuidoras, os consumidores industriais e os usuários de GNV.

Fonte: Gazeta Mercantil/Sindcomb Notícias, 25/07/07.

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